13.4.10

a ordem da mosca {uma short story de cris castro}

Substrato

Com uma toalha de rosto meio encharcada, coisa de minutos travava um épico embate com aquele emperrado registro do chuveiro o agora desencardido Estevan. No banheiro evaporava todo o cloro que a rede de abastecimento não tinha o menor pudor de adicionar como encargo extra às contas domiciliares. Tateava à esmo, cerrando os olhos escarlates pela reação alérgica, procurando aquela utilitária e fedida toalhinha que sabe-se lá para que fins escusos já havia sido utilizada. Desembaça absortamente o espelho na patética contemplação das partículas do quase mofado pano que um dia havia chamado de toalha, que pungentemente aderiam à superfície sebosa daquele vidro sujo. Estava quase gostando de ficar ali meditando acerca das relações eletro-valentes em uma insólita e complexa contemplação dos desgarrados felpos de toalha bolorenta. E foi neste contexto enevoado que um estridente e irritante chamado telefônico rompia toda lírica encapsulada por aquele azulejo pegajoso:-...Eu disse que já vai,caralho!! Praguejava tentando sem sucesso envolver os quadris secos com a ínfima toalha.-Alô, é Estevan?Perguntava uma radiofônica voz que parecia vinda do além devido à um chiado crônico na ligação que a relapsa prestadora não dava conta de sanar.-Fala cof..irmãozinho!Cof..Tossia Estevan.-E aeh, malandro? Aqui é Andrew.Estou ligando, pois tem gente que não dá mais sinal de vida!-Dá um tempo aeh, brother.Cof..A fumaceira do chuveiro era tanta que .. Cof,cof... Eu parecia estar era em Auschwitz.-O quê que têm witz? A ligação tá muito ruim,velho! Replicava a radiofônica voz do além.- Mas escuta,cara...em relação à aquele “assunto”, alguma novidade?- Não se trata de qualquer novidade. O que eu tenho para nós é uma solução quase milagrosa, he,he... Não se conteve o recém astuto Estevan, que para ornamentar a evasiva aura de seu “engenhoso plano”, tratou de sugerir que não falassem, por precaução, ao telefone.-Oito horas no Tamoio’s está bom? Quem chegar por último paga a ceva!-Certo... No Tamoio’s. Abraço.

Escaços feixes de claridade difusa embrenham-se intermitantemente nas lacunas que compunham a copa daquela outrora jovem figueira e que certa feita servira de testemunha à um ilícito e fruitivo abandono à atividade corpórea entre um casal de namorados que tinha por sigilo, assíduos e impetuosos afagos após o culto da Igreja de Confissão Pentecostal do Sexto Distrito. Com efeito, era esse mesmo recôncavo que agora, perdido de cupim, acolhia o retorno ao ninho da brava bem-te-vi que realizando solenes evoluções antes do pouso, trazia consigo um suculento e nutritivo verme para a ceia familiar. Pois bem, esta era a Praça do Peixoto: uma nostálgica coleção de seringueiras,vespeiros, merda de cachorro e onde incorriam-se torpezas de toda ordem à exemplo dos preservativos e seringas que espalhavam-se entre os arbustos. Desarmonicamente orquestrava-se naquelas adjacências o dissonante coro de camelôs, ambulantes e fiscais de fim-de-linha- " Délcio Borja,via americana sai às nove!"..."barato o oliú!”..." Vai uma lixinha pros pé, vizinha?”..." Vamo liberar a roleta subindo bem àcima!” Quase em fronte ao ponto do Rápida Marina estava o Tamoio’s, boteco que não deixava-se sucumbir, nem mesmo com as atrozes investidas da Secretaria da Saúde.-Mas rapaz, você sofre de distúrbio de fusos horários... A observação exalava hálito de cinzeiro e de onde mais poderia vir senão da paciência mórbida de Andy? Ao que replicava com insolência o suorento e atrazado Estevan:-Gin Tônica? Vem cá, isso não é bebida de viado?-Há uma hora atrás estava gelada. Vai um gole “aeh”?-Digamos assim, que a pontualidade não seja algo de exatamente invejáv... e mais uma vez o pitoresco re-tratamento era desarticulado,”rham”... se permitir o encejo, diante dos portentosos atributos de Anabel, a garçonete,que apoteoticamente surgira de trás da cortina de vime. Ah... Anabel, ou como preferia naquele suspiro monótono quase sussurrar-...’nabel.

Oviposição


Recém chegada de longas férias, leia-se manutenção, a saudosa jukebox estava finalmente voltando à ativa. Em meio à murmúrios incognoscíveis, sim e porquê só dessa forma é que se pode definir a compacta e indecifrável massa sonora que sucede nas efervecentes plenárias de botequim,”clisht!” fazia o crédito que dava ignição à cada tema escolhido. Algum bêbado que tivera a felicidade de num número de magia, apanhar do bolso seu último níquel, que descrentes, os demais gambás à muito julgavam perdido, após embaraçosas tentativas o introduz na velha máquina.-”Homens hic... de pouca fé” pensou. -Peraeh Andy, tá ouvindo essa? Ma’rapá, não é a... -É. “I wanna fuck myself” de G.G. Alin. -Ma’não?! -Sim. -...pra jogar uma pá de cau em cima do defunto! Lá vem ela... -Tá falando da música? -Não, da musa. Desapontado, explicava Estevan à Andy Que não raramente, causava-lhe a impressão de tratar-se de um ser renunciado à assuntos de natureza tal.



Eclosão


Como ia dizendo...ao perceber o conteúdo que repousava naquele recepiente que nem de longe parecia Vidro, o ardiloso Estevan não poderia deixar em branco sem soltar uma das suas - Gin tônica? Vem cá,isso não é bebida de viado? E já ia explicando qualquer coisa sobre seu problema com horários, momento que algum agente externo atravanca-lhe o raciocínio -’nabel. Suspira. -Senhores! Cumprimenta a jovem. -”Se não é a casual e dissimulada voz de mulher” pensa Andrew. -Senhorita. Responde o último. Ao que prossegue a fitá-la, como o fazem os lobos quando estão famintos,por sua vez, Estevan. Passam-se longos vinte segundos aproximadamente, em deslumbrado silêncio que a garota chega a franzir a testa preferindo, em virtude do volume de pedidos à anotar, despertá-lo do transe: - E nosso amigo Estevan, aceita um café? - Libanês. Num meio sorriso, sucinto a sustentar o olhar de predador, completa Estevan que por sinal venderia até a alma em troca do deleite com aquele “rabo-de-saia”.’Nabel executa uma manobra de 180º levando consigo o bloquinho de notas, sua locomoção era por assim dizer, de uma manhosa displicência, o que em absoluto desabonava sua plasticidade, pois mesmo feia ela era bonita. E o então lobo que acompanhava as fantásticas ondulações daquele nada modesto quadril num balançar contemplativo, observa como o faz o enólogo: -Saliência íngreme em arrojo e modelagem. -Que que tem “agem”? Pergunta o colega que, digamos assim, não compartilhava exatamente da mesma opinião. Ao que anciava o prosseguir do assunto “a”.


População

Cara, antes de mais nada quero que saibas que nunca soube o que é ter um irmão... então Deus me deu você.- a essas alturas, enigmático, evangeliza o precavido Estevan ao que perplexo, prontamente lhe indaga o interlocutor.- Sei, agora percebe-se que de ateu marxista te tornastes fervoroso carola!- Te antena rapaz, a partir de então essa é nossa senha para iniciar-mos o assunto.-...Mpf! Já estava prestes a me sentir lisonjeado.- Que isso velho, confio em você, ora bolas!- Tomarei como um galanteio, mas prossiga!- Numa cautela que seria obsessiva se não fosse necessária, nosso articulador Estevan introduzia o amigo, nos quarenta minutos que seguiram, a luz de uma tese sobre uma suposta conspiração envolvendo grandes laboratórios, gente do mais alto escalão do governo, ligada ao serviço de inteligência.- Tenho uma cópia do relatório descrevendo suas movimentações excusas.-acrescentou ainda finalizando, e dispôs sobre a mesa um fac-simile de um artigo publicado em forma de dossiê, algo como uma resenha bio-química.O Paxil compõe uma categoria antidepressiva ligada aos chamados ISRS, inibidores seletivos de recaptacao de serotonina, na qual o mais célebre representante é o Prozac. Sua atuação consiste em elevar o teor do neurotransmissor serotonina nas sinapses, acionando o impulso nervoso de célula para célula. Estima-se um déficit de aproximadamente 10% dos neurotransmissores que se perdem no processo, sendo 90% reabsorvidos. A fim de estimular a transferência dos sinais, os ISRS mantém a serotonina no espaço entre os neurônios por mais tempo.
A prescrição dos ISRS para criancas e adolescentes foi proíbida na Gra-Bretanha e em demais países de colonização saxônica. Sua distribuição ainda é permitida embora trazendo em suas embalagens as advertências para o risco do consumo entre os menores de 18 anos, e o alerta deverá ser ampliado após a publicação dos resultados da pesquisa, que aponta uma provável conexão com o aumento do comportamento suicida entre adultos e jovens.-Sei, mas exatamente que trunfo você acredita esconder, uma vez que o próprio ministério da saúde deve estar instaurando um devido estudo acerca da intervenção medicamentosa?-Pergunta Andrew, desacreditado ao avaliar a vocação evasiva do artigo.- Pois sim. Não consta como novidade que o Serviço de Vigilância Sanitária encontra-se acometido por uma ingerência em seu sistema de inspeção. Frouxo desse jeito, fica suscetível de compactuar com a pesquisa subsidiada pelos próprios fabricantes e como não costumo dar ponto sem nó, obtive essa semana acesso as somas registradas pelas pesquisas empreendidas nos demais países que o medicamento era comercializado e, acredite, onze entre os 3.455 pacientes que tomavam Paxil tentaram suicídio.- Não me admira! Num pais que detem 20% da biodversidade do planeta e a própria legislação dificulta o acesso de seus pesquisadores aos recursos naturais...Mas me diga Estevan maroto: -Você pretende ganhar o prêmio Pulitzer atrás das grades por hakear informações sigilosas?- Em absoluto, meu caro. Não é a fama que me instiga, se não justamente o contrário... Sou apenas um informata latino-americano sem dinheiro no banco, se é que você me entende?- Você está montando um banco com essas informações?- Somente o suficiente para financiar nosso plano de conquistar o mundo, he, he, he. Diga, quando se sente nervoso o que tem tomado?- Chá de camomila, cara. Chá de camomila. E você?- Chivas. ... A la salud!- A la salud! O poente costumava recolher-se cedo no sexto distrito, porém naquela tarde Andrew tivera a impressão que o sol rebelara-se com Deus, feito criança que insiste em ficar até mais tarde brincando no parque.

Afecção


Estevan surge desconfigurado junto ao jornaleiro que proclamava aos quatro ventos mais um sanguinolento manjar à base de vísceras para o sensacionalista apetite da população:-Manchete do dia! Acidente de trânsito envolvendo calouros da A.S.L.O High School mata seis! O sol ainda cândido ascende lentamente à vidraça de um prédio em monótona escalada, patéticos transeuntes dirigiam-se apressadamente ao encontro de suas mórbidas rotinas diárias enquanto Andy reconstituía imagens de garotos com luvas de borracha e lençóis feito capa preparando-se para enfrentar o mais temido dos vilões, ninguém menos que Seu Marcílio do armazém.-Extra!Extra!Rodovia da Morte! Acentuava o vendedor do Clarim.- Seis estudantes morrem em acidente. Estranhamente sentira que tempo e espaço já não poderiam lhe fornecer as mesmas referências em órbita das quais gravitava o seu “Eu”, sequer sentia suas pernas que respondiam com voluntariedade à um emocional imperativo:-Fuja Andy! Ao contrário, uma onda de frio percorria-lhe os ossos diante de sua sombria inércia; tremia o diário untado com a gelada sudorese das mãos.Temerosos, os olhos deslisavam bêbados de horror sobre aquelas catastróficas linhas e foi somente após uma longa e inútil reflexão que lhe escapara por uma fresta dos dentes antes serrados, a entreaberta constatação:-Estevan tá morto. Contudo, indiferente à tragédia que se desenhava naquela manhã, havia um certo atrevimento naquele sol que insistia em aquecer seu rosto para sempre gelado pela fúria da perda.Crianças lambonas teimavam com seus pais disputando vorazmente o direito à um último algodão-doce que restara da escassa féria de um pobre diabo naquela tarde nublada de agosto, que entre um pigarro e uma tragada no atávico cigarro de palha setenciava:-argudão doce!Numa cadência não menos que tediosa.-barato argudão!Floristas desarmavam suas tendas,e num ruidoso lamento ensacavam as coroas excedentes à espera de algum familiar retardatário ainda aturdido por mais um ente que partira.Num assovio franzino, o vento precipitava-se ante o melancólico ranger de galhos das imensas araucárias, lembrando floreios de esgrima como no saudoso clássico Simbad, o Marujo._ Já estamos fechando. Faltam apenas quinze minutos! Advertia o porteiro.-Não se demore,filho. Não hospedamos visitantes, he,he... Aposto que não apreciaria passar a noite em companhia de corujas e dos...Mas Andy isolara apenas, na fala de praxe daquele velho rabujento, a crucial informação:-...apenas quinze minutos! Então era isso, você que ainda nem elaborou a perda de um quase irmão, possui míseros quinze minutos para encontrar o endereço, prestar-lhe apressadas homenagens e retornar, concluía à si mesmo Andrew Josh Sorrento.Vivia na morte do amigo o epíteto da sua. À esta incorruptível desidentificação com tudo que é efêmero e conhecido, havia um universo rendendo a mais prostrada reverência. “A morte possui seu próprio milagre”, ouvira certa feita algum intelectualóide de boteco proferir entre taças de vinho dos mais ordinários e “trintonas” com os cabelos sumariamente oxigenados. O ponto era que aos olhos do mundo, sua dor parecia estar razoavelmente equalizada, considerando os reincidentes traços sombrios que compunham toda a personalidade melancólica: ao longo da vida,Andy já havia frequentado todo o métier psicanalítico que a relidade financeira de sua casa pudesse comportar e pelo menos oficialmente, nunca recebera desses profissionais um diagnóstico que satisfisesse alguma classificação patológica específica. Características comportamentais que não atendiam necessariamente à um código delimitado, mas que entretanto apresentavam um genuíno poder de embaraçar as opiniões de cisudos especialistas, garantiam-lhe profundamente o mais refinado sentimento de inadequação social. Haveria, por consequência, em algum confim da dor estética, meio de emitir ao mundo um sintoma dessa abstrata agonia que sua impressão de realidade encontrava-se imersa? Cada passo sobre as vielas emlameadas à procura do mármore que deveria conter a singela legenda “ Estevan Maroto Jr. 1981-2003, Saudade dos que te amam” redesenhava um cortejo íntimo escoltado pela discreta romaria de pensamentos conflitantes. Enevoadas imagens pertencentes à iniciação púbere comum à infância de ambos e que em dado momento mesclavam-se à um vertiginoso e compulsório sentimento de religiosidade desbotavam-se em matizes sépias de memória, oxidação e ruína. Uma encabulada garoa cedia espaço à pesados pingos de chuva que estouravam na superfície frágil de seu rosto sem que contudo expressasse sequer uma mínima contração facial, uma sútil indiferença exterior que contracenava com sua desintegração psíquica anunciava algo de enfandonho:“O Homem-mosca está de volta.”

Patogenia

- Última chamada! Chiraz, linha 307 sai às sete. Alardeava o irredutível comissário de embarque da “Expresso Zayandé”. Sua voz conferia-lhe uma verossímel austeridade profissional, quase uma intimação, não o fosse a tenra idade. Sim, o garoto iraniano expunha uma certa vaidade pertinente à afirmação dos jovens através do trabalho e que, sem exagero afirmar, em farsi, assumia uma superlativa aura de nostalgia.Fato que em seus autos, a massa falida Expresso Zayandé, não possuía licença para trafegar fora dos limites de Isfahan, em ocorrência de sua situação jurídica. Tampouco para investir um vintém que fosse na renovação de sua frota - com efeito, era a maior e mais obsoleta caravana de latas-velhas da cidade.Pois sim, foi exatamente encabulada e sacolejante a conquistar os mais austeros buracos da viela poeirenta que partira o último carro da intrépida viação.O estilo bricabraque hegemônico nas aromatizadas e hipnóticas “chaykunés”, casas de chás mais elegantes do planeta, sempre dispostas à poesia secular, aos românticos narguilés, com seus saborosos aromas, instaladas sobre as decrépitas pontes de pedra do antigo império persa, eram inadvertidamente transversalizadas pela artéria obstruída e eloqüente do tráfego semanal, o que constituía em si, um paradoxo.A despeito do feriado da Áurea Condolência, descobriam-se uma romaria estática através da qual desfilavam buraqueiras corruptas e imperfeições afins daquele acidente paisagístico que em um emirado longínquo haverá de chamar-se pavimento. Restava a nuvem ciano que os escapamentos expeliam, confundindo-se com a poeira da rua e garantindo a débeis pombos um enfileiramento deveras desajeitado no parapeito do centenário para dali a pouco, provavelmente aflitos por ar puro dispersarem-se em gorjeio mútuo. Andrew farejava fumo suave, orvalho jovem com sabor de maçã, menta ou laranja, embalado pelo som das águas sob a ponte Chuby. Taciturno a perambular o labirinto de vielas estreitas que ligam os trinta e três aros da ponte Si-o-Sé, todos invariavelmente cênicos, era naquela noite constelada aportado por voluptuosas formas de néon violeta nas torres de templo e vento pontuadas por estradas bucólicas e fragrâncias que indicavam os sabores milenares do império que ainda iam à mesa.- “Saudoso velhaco!”. Era a sentença que lhe pairava a idéia ao avistar a silhueta familiar acomodada próximo à janelinha forrada de tapete, lânguida que não se opunha nem por um instante em conjugar seu “ghalian”, com uma robusta esfiha recém sacada do misterioso pacote pardo, num movimento sagaz que dizia respeito aqueles destemidos cowboys do velho oeste, dir-se-ia um John Wayne.Ali estava Nado Rosso, a quem Andrew capturava com olhar atônito e que desta vez, conduzia a cena como um foco de uma velha super-oito. Uma super-oito imaginária e alheia ao tempo, que internalizava a paisagem rococó, recriando-a em pequenas tomadas daquele estranho mundo.À sua maneira, dissimulava Andy, um andar objetivo e apanhou-se a rir da aura de detetive. Voltar a si, mudar de estratégia, concordou. Lhe ocorreu então, que se não estivesse ali para ter com Rosso, seria provavelmente um observador de pássaros daqueles melancólicos programas de tv da Transtel Produtora. Diminui a marcha como o fazem os curiosos nas adjacências dos acidentes de trânsito.Havia um desses bartenders. O do tipo bartender, e também havia, é verdade, um desafino uníssono de risadas descartáveis alheias aquele epopéico reencontro. A voz de Nado Rosso não é a rigor uma voz imponente, mas talvez ressonasse como uma vibração sutilmente enérgica para além do desembestar da rouquidão:- Chay! Concordava com o cara de avental, o que fazia o tipo bartender, que aproximava-se de sua mesa oferecendo a bebida quente acompanhada por cristais de açúcar para serem postos a boca e derretidos pelo chá, em uma manobra atávica, a desalojar um desdenhoso bocejo.A lei seca iraniana, longe de ser apenas uma instituição é por excelência, um discurso. – Chivas! Proferiu a esmo Nado Rosso, orientando com inconfundível gesto de dois dedos. Por um instante desejou não transitar com proficiência em farsi, para que o falatório massivo viesse a transubstanciar-se num único fluído sonoro despojado de sua função original – comunicar. Ocorreu então, que em uma solubilidade meteórica, Rosso é arrancado violentamente de sua voluntária introspecção do abstrato ao aproximar de uma sombra viva, oriunda de um passado próximo.- “...Ah! ambição ocidental! Só não é menor que a avidez desta mosca à espreitar meus cubos de açúcar. Aludiu, em tom irônico ( que lhe prestara de faixada para o súbito desconcerto gerado pelo visitante) e prosseguiu sem desviar o olhar jurídico sobre o jovem:- Codinome Homem-Mosca. Ao que instantaneamente replicou o rapaz. – permita-me observar-lhe, mas não há aqui em Isfahan, um único fiapo de prova que evidencie jus ao emprego de formalidades!- É verdade. Avaliou o velho e desta vez sua voz assumia um tom indulgente. Sendo assim, será um prazer que se apresse junto à nossa casa, a fim de saborear algumas de nossas especialidades acompanhadas por bom fumo. Sem hesitar, o recém chegado assume assento sobre a esteira, buscando sucessivamente um alojar-se confortável e num segundo momento, à revelia do semblante costumeiramente sisudo que o tempo moldara no intuito de conferir-lhe escudo ante a aridez do mundo, assinalara um pacto de trégua sob efeito da penumbra que adentrava mansamente o ressinto e assumia enfim, deliberado ar de amistosidade:- Percebe-se, e isso é espantoso, Nado, que para um técnico em explosivos te tornastes um proeminente ecônomo.- É um empreendimento modesto, em que a grandiosidade repousa na intenção de prover aconchego às almas cansadas e refúgio a ocidentais insatisfeitos com sua comida-lixo, digo fast-foods. Refletia Rosso, emprestando ainda que ínfimo, um tom de ironia as suas considerações e acrescenta ainda:- Sabe Andy, o fim da vida é o fim da vida até mesmo para um assassino saudita e merece ser assistido pelo cajado da dignidade. No entanto, não esperava a pronta réplica do jovem :- Deixa de conversa mole seu porco! É evidente que não escolheu o Irã apenas para ser o recôncavo de sua aposentadoria.-Não? Pois prossiga. Orientou o velho sem despojar-se da atitude serena.- Ou seria porque a vizinha Teerã é a capital mundial do MDMA e esta espelunca a faixada perfeita para lavar seu faturamento sujo? Retaliou o sisudo jovem.- Ah... o MDMA líquido. Leia-se, a matéria prima para amortecer o mal-estar da civilização densamente povoada pelos amantes do liberalismo e da democracia. Pondera Rosso que no tocante à acusação recente presta-se a mais uma rajada de humor negro : - Francamente meu caro confráter, acaso pensou o patrício que o Hezzbolah é nosso único artigo exportação?- Deixa ver. Após anos operando em conjunto, parece coerente que a milícia ofereça guarida à suas transações. Conclui o jovem a equação que lhe empresta a impressão de um inelutável sentido e prosseguiu – Mesmo um organismo de caráter fatricida depende, por assim dizer, de uma estrutura financeira que o sustente e nesse caso, o percentual exigido não é nada modesto.- Pra um delator profissional, sentencia o velho, te saístes um analista político não menos que promissor. Outrossim, temo precipitar-lhe que o ponto é que a milícia fundamentalista é o povo. São estudantes, advogados, são os operários e se por um lado estão camuflados em áreas civis, o “Consorte das Rapinas” não apresenta menor constrangimento em considerá-los alvo. Afinal, são os “Caras do Mal”.- É tudo muito bonito. Não o fosse o fato de cooptarem o imaginário público como campo de exploração ideológica. É o que chamamos de engenharia de consentimento. Numa próxima etapa não encontram resistência para que a população lhes sirva de escudo, basta que sigam seus sentimentos. Ao que o velho lançava mão de sua última e letal ogiva:- Parece que a apropriação indevida não é monopólio apenas do Governo Imperialista, não é mesmo meu duplo-cidadão? Acometido de um potencial ímpar para o sarcasmo, pontua o velho Rosso: - Pois falemos de sentimentos. Seriam acaso, compostos por uma substância comum à que tão friamente soubestes suprimir quando da delação de seu afeto compatriota? Como se chamava mesmo? Deixa ver... ah, como poderia? – Esteban Maroto, não é esse o nome?- Calhorda! Espumava Andy. Foi você quem colocou os explosivos no carro dos calouros. A missão era compartimentada e não havia condições para eu compreender as conseqüências ao entregar-lhes o Dossiê Esteban.- Uma operação conjunta eu diria. Precisou o velho. Nascida da multisciplinaridade em que seus serviços foram de suma importância.- Velho filho da puta! ... faça-me o favor de morrer logo,seu puto. Pragueja o belicoso e chulo Andrew.- Se Deus quiser, filho... se Deus quiser. Sussura o velho asiático, mirando o afastar-se do jovem desolado. Durante longos minutos sustentou o olhar que fitara a operação inversa do amigo que peregrinava de volta à meca ocidental- o Fast food – local sagrado onde líquida e seguramente começava a América. Suspensa no ar, a fragrância anis do “ghalian” represava-se junto ao lustre pingente do obsoleto salão persa como se testemunhasse a inutilidade daquele reencontro.

Concluído em 20 de Fevereiro de 2007.

Dedicado a Gillo Pontecorvo¹ com admiração e afeto.
¹(La Battaglia di Algeri / The Battle of Algiers - 1966, Continental)

6.7.09

undo design press release



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23.2.09

Peter Witkin para Colorir


A era democrática tem por orígem do gosto, constantes formais que -hegemonicamente - apontaram para um polo emissor do belo: o Renascimento. A presença do grotesco na arte choca por propor um contrafluxo ao que era regra. Provavelmente Goya tenha rolado a pedra. Se hoje a "transgressão do belo" representa um franco desafio aos nossos condicionamentos perceptivos, a arte por sua vez, pode não necessariamente " parecer com arte". A retina dos medias esbarra nessas tendências, geralmente incorporadas à cultura em detrimento à resistência que encontram nos seus cidadãos de bem. Com efeito, numa sociedade incapaz de superar suas contradições, o estímulo visual analgésico surge refrescante à cada dia e perpetua-se à medida que fabrica nossos hábitos de consumo. Posso não gostar das inflexões de Joel Witkin, porém me incomoda mais a idéia de que um gosto particular, por mais requintado que queira ser, venha a legitimar o instrumento crítico capaz de problematizar o procedimento artístico . A cultura produziu a neurose, Witkin arranjou-lhe significados sensíveis.

11.2.09

Da Contra-Informação ao Pensamento Único Neo Liberal : Conceitos de Crítica da Indústria da Mídia

Este Artigo foi originalmente publicado na revista Comunicação & Política / Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Vol. 25, nº 3. Rio de Janeiro: CEBELA, set.-dez. 2007. Corresponde às páginas 25 à 47.

P.S.: Dê um clique no título para acessar o site Estratégia & Análise do sociólogo Bruno Lima Rocha.

5.2.09

Energia Tentacular Irresistível ( E. T. I )


Eureka! Oxalá a ilustra aí responda satisfatoriamente às críticas recebidas sobre meus experimentos gráficos em série - (risos) - que aludem ao parcelamento corporal e a aniquilação física . Mantendo as constantes formais ( traço linear , a relação claro/escuro, etecétera ) acentuei as linhas de conflito para este novo trabalho, afim de que a valoração tonal não viesse à " enriquecer " o apelo emocional da imagem, levando a retina para o lado negro da força. Temo que sobre as instâncias psíquicas do homem por onde venho deslizando os pincéis, esse trabalho fale pouco . Mergulhado em águas mais rasas o cidadão acima revela o artista contemporaneo que estabeleceu uma dança fluídica e irrevogável com os novos tentáculos comunicacionais . Se a mitologia em questão é binaria( na ), faz-se conveniente a consolidação das conexões instrumentais nos domínios de Net( uno ). Criemos pois, tentáculos midiáticos tenazes para que nossa produção intelectual abraçe novos sentidos, uma ética superior ao mercantilismo e uma política criativa que favoreça a noção de cardume. Que o produto cultural adquira ventosas capazes de aderir visceralmente à um suporte moderno e ao mesmo tempo democrático, que queira instigar um debate franco reinventando sua própria função social.
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O Molusco Artesão Armazena Caracteres em Bolhas de Ar
seria um título formidavelmente pretensioso para seguir alimentando meus estupendos críticos. Blurp !

27.1.09

um trabalho braçal



dando continuidade à pauta H.Q. , resolvi homenagear mestres como Suehiro Maruo ( ver post anterior ), Shintaro Kago, Seiichi Hayashi entre tantos, desenhando uma cena que aborda o submundo das satisfações grotescas do Eroguro. À quem possa interessar, utilizei para o lay-out ( lápis ) grafite Faber Castel 0.5 , nanquim Higgins e pincéis Tigre pelo de marta 181/2 e 6 para a arte-final . Os tons de cinza ficaram por conta da " photoshopeira véia ". Na verdade, minha relação com horror nos quadrinhos remonta aos idos anos 80 na companhia da revista Kripta e da Mestres do Terror de Rodolfo Zalla e Colonesse. Sob influência daquele grafismo estonteante rabisquei minhas primeiras histórias numa dispensa mal-iluminada lá de casa, que eu batizara " Mãe Solteira" produções editoriais. hahaha. O trabalho acima é um reencontro com essas imagens pungentes que me tiravam o sono. Na época rolava uma " caça às bruxas " dos corpos docentes para com os quadrinhos. Minha mãe, então pedagoga puritana ransava : - Já tá denovo
com essas " caveiragens " guri !
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.Sessão Nostalgia
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ainda nos delirantes anos 80 a gurizada ligava a telinha nas tardes ociosas de férias regadas à Toddy e Supercau para ver dali saltar um escatológico Dom Drácula do grande Tesuka na rede Manchete. O vampirão voava e arrancava à la Ozzy Osbourne, a cabeça de duas ou tres ratazanas providenciando para que jorrasse sangue para todo lado. Seu arque inimigo Prof. Van Helsing sofria de hérnia de disco e se mocosava no caixão do príncipe das trevas para
deixar-lhe de souvenir sua deposição intestinal. E olha que eu to falando de um período pré- abertura política.
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P.S. : para todos os efeitos vou restringir as visitas á esse post. Vai que a coroa acesse... horns up !

21.1.09

Encaixotando Suehiro


"sua obra tem beleza demais, uma técnica impecável e tamanha complexidade de idéias que é impossível classificá-lo simplesmente como um pornógrafo talentoso ou um 'gorehound ".
(
Nathan Bennett , jornalista da Dazed e Confused )


Considero inegável que a obra de Suehiro Maruo surja como uma HQ de sondagem psicológica aonde a façanha discursiva subsista na idéia de transversalizar seus limites pictórico-espaciais. Tamanha densidade conflitual das idéias dispostas em sua linguagem “ Gore ” lhe rendeu comparações à Georges Bataille, Marquês de Sade e William Burroughs .Não obstante, acharia prudente uma investigação sobre as inflexões do artista, que fosse capaz de reconhecer sua própria trajetória como um dos vetores decisivos para a compreensão das suas proposições de autor. Anteriormente à toda essa ebulição em torno de si, Suehiro tivera por inúmeras vezes, seus trabalhos descartados pelo mercado editorial dos mangás - que saia de cena - movimenta uma fatia substancial do produto interno Japonês. Acredito na premissa da inadaptabilidade do autor à uma indústria de entretenimento que prime por uma cultura visual " anestésica " e não se interesse por MOSTRAR algo, senão por VENDER algo. É exatamente aí que Suehiro descobre seu nicho. Ao contrastar proporções do grotesco e do fantasmal com uma paleta nada menos que sublime, apresenta-se como alternativa à todo um modus operandi num franco desafio à nossos hábitos perceptivos. Seu mundo é o mundo da satisfação dos desejos em estado selvagem, despojado daquelas operações de controle desempenhadas pelo super-ego¹. Paradoxalmente, o supra-racional e o amoral encontram-se à irromper como fenômeno narrativo sugerindo a representação do desgoverno, das carnificinas e dos genocídios não ficcionais, à passo que a fluidez onírica dos cenários plenos de simbolismos gráficos , aponte para a situação surreal do objeto de arte por onde discursa o inconsciente. No patamar Nietzscheniano, a articulação estabelecida com o universo de Maruo, reside seguramente nos aforismos do filólogo² acerca da obssolescência do homem ( o Eu individual Vs. O Eu social ) . No tocante à cultura pop, livros como “ O Vampiro Que Ri “ e “ Eroguro “ serão provavelmente computados como marco-inaugural do gênero angura³ dentro dos quadrinhos, estando em plena disseminação de seus núcleos de identidade e consumo em países como Alemanha e Estados Unidos .


1. : Ver teoria da Sublimação e Recalque. 2.: Nietzsche era formado em letras. 3.: Termo empregado para designar o mangá underground.

4.12.08





Debaixo deste Ipê
finda a sombra partigiano

da campina serrana
eis que ouve-se o brado
açoreia sem fronteiras
a torrente soberana


no esquinaço gondoleiro
teu solado sinaliza
da vitória
o posto intacto,

pois debaixo deste Ipê
finda a sombra partigiano.

Cris Souza

21.9.08

à exatos doze meses, iniciei uma série de crônicas/ensaios de cujos apontamentos psico-sociais destaco este que tão bem se presta a repensar a condição do ente urbano que ora refletindo ora mimetizando tal boneco de ventríoloco aquilo que hoje se toma por tradição gauchesca, segue inadvertidamente a irresistível tendência rumo ao despojo total da genuinidade desta.

o avestruz irredutível

hoje é 20 de Setembro... de acordo com dados historiográficos este dia foi o... "Precursor da Liberdade" conforme o sublinha o cancioneiro farroupilha. outrossim, ao voltarmo-nos para a prática, percebemos por assim dizer, uma tendência apática que se me permite o ensejo, penso em batizá-la (que me perdoem os ambientalistas ) de "Efeito Avestruz!" Com a cabeça enterrada no solo arenoso da contemporaneidade, aliás postura desconfortável aonde restou-lhe apenas a liberdade do "traseiro ao vento", o "gaucho" ( prefiro sem o acento agudo, soa mais castelhano )- ser mitológico das heranças etnológicas- surge na metrópole como um vulto perdido. como solucionar esse sujeito histórico ? caminhos que levam à um decréscimo do patriarcalismo na estrutura familiar, com o advento da "Mãe Solteira" como um "ente" da família desatomizada, aguardam o desvendamento de antigos códigos, a desconstrução de velhos estereótipos.
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uma linha de sofrimento cruza a querência de "fora à fora" sem que contudo, nosso tecido político dê um passo democrático por mais acanhado que seja! Sonhamos com esse rincão esquecido... o que antes era destinado ao convívio coletivo e solidário virou uma compilação de espaços privados, individualistas. a conquista das metrópoles no ocidente foi marcada por essa tendência. a exposição do caudilho à experiência radical da individualização é o mal estar advindo de sua prática de sobrevivência, de sua insatisfação determinada por ciclos de repetição regulamentados pelo rigor do tempo industrial tão caro às grandes agências de controle social.

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no painel histórico do Rio Grande, a crise da individualização tem sua gênese no temor à mão de obra de substituição, à alta taxa de rotatividade dos quadros funcionais presentes nos colossais investimentos atraídos por atrativos fiscais sem precedentes. mas o ponto não é discutir o grande rombo no orçamento do estado como os 750 milhões que jorraram dos cofres públicos antes da ampliação, não é mesmo General Motors? o grande "fervido" da cultura em que se banha a sociedade industrial ( e que modelo insustentá-vel, tchê! ) abre campo para a falácia ambiciosa sobre a destinação social da grande "corporation"- Gaúcho! Conta Comigo- enquanto no playground hipnótico da pós-modernidade, a piazada trata de acumular relações sociais simuladas no confinamento virtual – Segunda Vida é a cancha reta do declínio do Self. Solidão e tristeza conectadas em rede.... O “profile” como indicador da posição geo-estratégica propícia à novos nichos consumidores.

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nas bocas: - não é a cochilha, mas a metrópole que nos torna um ouriço.

31.8.08

Los lunes al Sol


sobre hiper-realismos e big crounchies¹

a captação pluviométrica indica decréscimo na liquidez orçamentária do objeto audiovisual.provo. foram suficientes módicos US$ 4 milhões para a produção espanhola Los Lunes al Sol trazer à telona a topografia da exclusão que se dilata em escala aritmética durante os 113 minutos de um genuíno cinema de compromisso. atualíssimo. o extraordinário
Fernando Leon² acertou ao convocar o canastrão mais carismático da ibéria - Javier Baldem - para encarnar Santa , uma espécie de entusiasta das plenárias de boteco. após os confrontos dos trabalhadores com a polícia quando do fechamento do estaleiro naval da cidade de Vigo, o drama desse círculo de amigos passa pela obsolessência de suas vidas profissionais ou pelo desencantamento frente à promessas mágicas de crédito bancário. a comoção é lírica no escapismo flutuante de Santa que divaga sobre as grandes oportunidades de uma vida na Austrália.

niilismo

" a questão não é se acreditamos ou não em Deus. a questão é se Deus acredita em nós." metralha um dos franco atiradores de balcão com o olhar perdido na insólita
xanadu³ dos ébrios. entes reais de um cotidiano particularmente familiar, abandonados à uma subserviência satélite num encadeamento impressionante de eventos.aquelas gaivotas portuárias se prestam formidavelmente para descrever a lentidão e o ócio enternecido pelo sol. contemporaneidade e celebração da vida em meio ao congelamento. bom de ser visto antes de ir às urnas.

1.de Big Crounch: fenômeno inverso de Big Bang, aonde ocorre uma implosão do universo gerada pelo rompimento dos limites de espaço.( tentando explicar com as minhas palavras )


2.Fernando Leon de Araona: diretor, produtor e roteirista aplaudido de pé no cine Rampa de Havana. alcançou grande êxito em Princesas seu mais novo trabalho.

3.Xanadú:


"A
place where nobody dared to go,

the love that we came to know
They
call it Xanadu"

Olivia
Newton-John

29.8.08

pshhh! Começou a Favorita


la vien rose, contigo toda a sexta-feira é da paixão.

na semana das notas cifradas, dos padrões ocultos rastreados pelo pentágono num weafer da mirabel, o descarrego deste filho de xangô. eis que, louco para romper o invólucro epitelial meu Self, ( meu sélfe ) pulula saltimbanco os cacurutos da BR-118. pelo acostamento é claro. segunda feira começo. já dei o carimbão no contratão. tem mais volta é não. a culpada disso é tu neném, que me convida a cruzar a fronteira sertânica para o " amar pode dar certo affair christian & ralf or die ". trevo da sorte . cover up das cagadas que dei nessa vida. tinha que ver, parecia a novela gráfica do Grampá, a Mesmo Delivery. comendo o pó da estrada as Scannias sorriam sinais de luz enquanto o trucker talk corria solto nas minhas sinapses. I'da rufo... cara, loco pra ler esse trem. salvei um preview do pdf da MESMO em inglês lançada primeiramente lá na San Diego Comic Con.
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finde da pré-estréia do Ainda Orangotangos. tenho que descolar "algum" nem que seja só para o ingresso e o café. mundo, mundo... por que não posso te-lo? Old Bart surge em minhas têmporas com seu plano infalível para rapar um "pato-que-ronca" deitado sobre jornais nos saguões de Time Square.
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esse Burroughs...... re-terminei. aliás, o único que se salvou durante o último mini-inventário.
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sem retaliações textuais ao burlesco midiático-eleitoreiro. sem saco.por que hoje é Sexta. já preparei um almoço pra galera - o que me instaurou uma indiferente tranquilidade- ( através dos apesares ) isso ainda vai virar bordão. na tv, a voz da Manoela parece chiado de boneca-que-chora com as pilhas fracas e riscada de canetinha com naris entupido. ainda assim baby, pasme, isso é infinitamente melhor que a patética interpretação da Cláudia Raia na novela. parece aquelas coisas que ela fazia na época da TV Pirata.

P.S. - foi mal aí Manú, tu és a menos pior parece. abraço pros mano, pras mina.pra xuxa.pra xaxa.

No alto: " dona das minhas vontades "

26.8.08

Upai-vos ó Vítima da Fome

2006. caio inadvertidamente como que por um encanto nos domínios da blogosfera que por sinal, comporta a viabilidade potencial sim, de se produzir discussão - o que já constitui um caminho estratégico para qualquer transformação que se almeja realizar.

pessoalmente, vislumbro um campo de florescimento dessas latências à princípio, na atividade intelectual que estrategicamente se possa desempenhar lançando mão dos multimeios digitais, das plataformas de relacionamento e compartilhamento. o que hoje se compreende por cyberativismo, paradoxalmente torna " virtualmente impotente" e abstrato as iniciativas físicas que não estabelecerem uma conexão permanente com o fluxo livre de informação que a revolução da internet está sendo capaz de prover.

fenômenos como os flash mobs dão a receita de como se juntar gente para ações possíveis, sejam culturais ou políticas, por que não? à despeito das grandes corporações de entretenimento por exemplo, que "enfrentam" atualmente todo um complexo esquema de adequação ao irremediável sistema de P2P ( per to per ) de distribuição e trocas do produto cultural. aí também incluem-se todos os demais vetores que ocilam na órbita do que se compreende por internet 2.0. são as ferramentas de que dispomos. e se você ainda tiver dúvida, pensemos em todos os conflitos e incidentes internacionais da última década que, pára além de todos os bombardeios genocidas representaram igualmente uma guerra paralela, não menos atroz: - A GUERRA DA INFORMAÇÃO - através da qual se disputava a conquista da opnião pública, do consentimento dos contribuintes dos fiscos que financiam as guerras, tão caros à encenação magistral de uma democracia representativa que se imagine sustentável. são as CNN's Vs. All Jazira's da vida ou a manipulação midiática durante a desarticulação de uma Iugoslávia que desmoronava em massacres étnicos orquestrados diante à caridade ocidentalizada da comunidade européia. a herança do socialismo antepassado quer utópico ou científico gerou acúmulo de experiências significativas ao pleitear o controle operário dos meios de produção, apesar de sua suposta derrota histórica. se por (des) ventura, perdermos para as majors, para os conglomerados e para as mega-fusões corporativas o direito de protagonizar essas importantes mudanças operacionais que partindo da rede, estão determinando a configuração do tecido comercial ( e, social- político talvez ? ) aí sim, aí poderemos lamentar uníssonos em melancólicos soluços, o fim das utopias. no epílogo da história tinha um hiperlink .foi bom pra você, Fukuyama* ?

* Francis Fukuyama: Teórico nipo-estadunidense e principal ideólogo do Neoconservadorismo, autor de " O Fim da História e o Último Homem ".

23.8.08

Os Mexericos de Bérégovoy *



A torrente do imaginário vez por outra seca. A gente olha pro notepad em branco e simula toques no ar a fim de expremer um carctere que preste. Hora perfeita pra criticar a obra alheia. Pensando nisso, me esforço em vislumbrar o que as letras " Pós-Paulocoelhianas" reservam para os simulacros vindouros. Se há uma constante cinética no "fazer literário" deste século é que ele pula de um folhetim para outro. O formato editorial que estandardizou as letras no passado, com a fórmula de revelar o Brasil desconhecido e gerou -é verdade - cronistas formidavelmente reacionários através e apesar da genialidade de sua obra. To falando do Nelsão mesmo. Desde o começo do século passado apoiava-se na equação [ Ascensão Social através do casamento + Colaboração entre Classes= Pedro Coragem montado sobre Heleninha Roitman à galopar o Asfalto Selvagem]. Final feliz e justiça social para o imaginário público no país do futebol. O formato condicionou e condiciona o estilo seja em byte ou celulose, o blog de hoje foi o folhetim de ontem. A senha chama-se "auto-referência" . O cinema nacional recente, vive disso. Meu Nome Não é Johnny, A Festa da Menina Morta, Nome próprio...

Em recente entrevista Clarah Averbuk(owski) , declara que Nome Próprio ( filme do Murilo Salles que premiou Leandra Leal no último Festival de Cinema de Gramado ) não é em absoluto, sua cinebiografia adaptada. "-Blog não é gênero literário". Desconstruía categórica a autora hypada de Máquina de Pinball diante dos microfones-endoscópicos na telinha aqui de casa. Pessoalmente, penso ser perfeitamente discutível a probabilidade dos "multimeios" apresentarem uma conexão plausível enquanto espaço real dessas transformações na literatura. Mas daí negar que a blogosfera há de definir os padrões de consumo literário doravante é que são elas.

P.S. e olha que este que vos escreve é resoluto fã dos Henrys sejam Miller ou Chinaski's.

"Eu te vejo sumir por aí

Te avisei que a cidade era um vão

Dá tua mão, olha pra mim

Não faz assim, não vá lá, não

Os letreiros a te colorir

Embaraçam a minha visão

Eu te vi suspirar de aflição

E sair da sessão frouxa de rir

Já te vejo brincando gostando de ser

Tua sombra se multiplicar

Nos teus olhos também posso ver

As vitrinas te vendo passar

Na galeria, cada clarão

É como um dia depois de outro dia

Abrindo o salão

Passas em exposição

Passas sem ver teu vigia

Catando a poesia

que entornas no chão"

( Chico Buarque )

* Piérre Bérégovoy, ex-chefe do Governo Francês que se suicidou em 1993.

No alto: Heleninha Roitman recebe Exú-mirim em Vale Tudo.

O Simulacro Nosso de Cada Dia

A fim de evitar os maldizeres da mestra Glorinha Kahlil... compartilho do ranso de Noam Chomsky, rechaçando o cogito discursivo instaurado e perpretado pela intelectuália do mundo... ) Se por um lado esse "rigor", esse "estilo" funciona como indicador de hiererquia, subjugando o leitor mais singelo ao caráter institucional da " autoridade intelectual ", por outro, gosto de pensar na linguagem como ferramenta "informe" e sensorial, isenta de critérios de julgamentos unânimes e constantes. Enfim, a bandeja de apresentação e o antepasto textual da idéia-essência. No curso da história, o "gostus" surge como um fluido amorfo determinado mais pelo recepiente dos paradigmas ou qualquer outra porcaria que o valha! Mas exatamente no contexto da sociedade de produção de bens de consumo, estamos impelidos a conceber as formas, uma vez que estas apresentem uma função. É a ditadura da noção de Utilidade.

Não obstante, há vetores ornamentais que demandam maior discussão. Temei ó Jerusalém à amplitude da busca da realização sintético-virtual!

Se a hegemonia desse comportamento do "Culto ao Corpo" significar uma simulação da auto-afirmação de um patrimônio ambulante na relação ter/poder , podemos dilatar esse pensamento para o Metaverso- ( ver “Second Life”, “ Orkut” e afins ) aonde não há limite para a simulação que sejam formais ou éticos. Podemos nos transformar sem dor. A velocidade com que eu aumento meu bíceps, camuflo imperfeições ( de caráter ou estéticas ), me formo advogado, Califa do Petróleo ou astro pornô é infinitamente maior. Enfim, a possibilidade virtual como um desdobramento da mesma lógica.


Felizmente ou infelizmente ainda não podemos ser o Flávio Tavares, o Joe Sacco ou o Lars Von Trier, pois ainda não é possível extrangular a subjetividade da vivência dentro de um bit de computador. O que não significa que estamos longe disso.

22.8.08

Job Rotation



das entoadas murmurantes do Aranquã¹, galhos prostram-se em " U " invertido na quinta-feira de chuva fina. rabisco em toques leves, caixa baixa - mais íntimo - as confissões do dia. nada melhor que o confinamento familiar num apartamento de um quarto para assentar o plano pré-pago da expiação de pecados futuros. ficamos com crédito kármico na casa. como é que Dante não descreveu esse círculo infernal em sua prosa ? falando em inferno, no consultório médico a atendente me repreende em tom sepulcral: - mas eu já te mandei pro quinto ! referindo-se ao andar em que eu deveria apanhar o resultado dos exames clínicos. extra, extra - foi diagnosticado a presença de sedimentos de cristais de cálcio e sangue na urina ( N. do R.: níveis acima do tolerado em se tratando de saúde ocupacional ), mas passei, está tudo bom, para um médico do trabalho, estará infinitamente tudo bom assim como no presente para todos os séculos e séculos... - por que é raios que me pediram pra repetir a m... ( opa, é xixi mesmo ) do exame ? Para dar vazão à enxurrada do lodo burocrático e desperdício de tempo ( do meu tempo ) em densidade pluvial. - Qualquer coisa a gente liga. por enquanto estás liberado, Sr. Cristiano.

"pedro pedreiro penseiro esperando o trem
manhã parece, carece de esperar também
para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
pedro pedreiro espera o carnaval
e a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
esperando, esperando, esperando, esperando
( Chico Buarque )

procurar emprego já deveria constituir um vínculo empregatício com o Ministério do Trabalho. o dispêndio financeiro com os encargos de composição de currículum,transporte, exame médico, atestado de bons antecedentes, havaiana nova pra fritar no asfalto nas intermináveis visitações às empresas encobertas pelo doce mistério do " emprego em vista", deveriam ser por assim dizer, passíveis de resgate tão logo o sujeito recebesse o primeiro extracto de pagamento, a fim de diluir o efeito coagulante da relação dos descontos do mês. o governo por sua vez, manteria uma conta permanente com os mega-investimentos que pudesse atrair sob a promessa auspiciosa de nunca, jamais promover geração de postos de trabalho compatíveis com a oferta de mão de obra existente. todavia, seria prudente que as instâncias administrativas competentes exigissem do candidato à qualquer vaga, o Alvará do Empregado que se Oferece. desta forma, os contribuintes do fisco- mesmo desempregados- poder-se-iam ser considerados economicamente ativos. aliás, desempregado não ! O eufemismo pertinente seria algo como um " à disposição no mercado ". "click" no úrtimo.

1. Aranquã: Ortalis Canicollis, ave silvestre - Brasil.


14.8.08

Balade Pour Toi


Café com creme
Espalha à míngua
tua boca-candeeiro
de acesa língua

penso, penso

esparramo com creme
Cole Porter
Miles Davis
Vermelho? “ Suable, mister !”
c/ peti-poá branca
e sulfato de codeína

Desce em teu ventre
a mão ligeira
por onde escorre o tempo
areia e terra-cota
“ avoa “ a nave brejeira .

Teu beijo assim
é confete
páprica picante
do “ ruim-que-dá “
e batalha de salão !

beijo, beijo

Pássaro aflito é João
pivete + bola + vidraça
casa de barro, vermelhidão
do amor maciço.
- Que graça !

Epílogo :

Cheiro à tabaco
vez em quando macio e virtuoso
leio jornal ao sol ( e fico informado )
sobre o pilantra que enrabara um mendigo.

Cris Souza.

13.8.08

- Le Meilleur Du

hagah | Cultura e Diversão - Le Meilleur Du

É terça feira no mês do cachorro louco deste irrequieto 2008. Das vielas livreiras e esperas portuárias, os caminhos da paixão passam por bibliotecas públicas, arquivos infográficos e assoalhos de madeira opaca. Todos os demais degraus encerados que espelharam a mocidade dos tornozelos alvos em fivelas de lacinho, continuam rangendo suas memórias nos corredores hiper-reais do " Mercado Público".
Apesar e através da chuva, empreendo minha micro-expedição pelo centro na tranquilidade instável das meias secas.Que nada, eu gosto dessa chuva. Somente desta. Pausa para secagem na endo-exposição " Le Meilleur du " no primeiro andar do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa em Poa. A panorâmica francesa dos cem melhores trabalhos premiados no Festival Mundial de Foto Jornalismo ( maior evento dedicado ao tema no mundo ), que realiza-se na cidade de Angers. Comove. Destaque para o arsenal analógico da primeira metade do século passado. São Rolleiflex e outras gracinhas encantadoras em estojos de couro. Reprodutibilidade técnica à parte, a experiência estética com a aura destes elegantes artefatos da era do portfolio físico me deixam melancólico esta manhã. Michele, ex-colega de vestibular e licenciando da Ufrgs pede que eu assine o livro de visitas. Enquanto desembaraço a correntinha da caneta pingente, penso em como a intervenção táctil no cromo revelou num passado próximo a necessidade de criar-se sentidos que vão além das exigidas pela deadline do mercado editorial.

11.8.08

Caiu na Rede é P2P eixe


Que o universo online promete daqui para frente atrair e canalizar os mega-investimentos ninguém tem dúvida. Vide a compra do videoBlog Financeiro Wallstrip pela CBS cuja última aquisição foi a Last.fm numa tranzação estimada em US$ 280 milhões. Entrementes, a pergunta que não quer calar sobre as neo-plataformas de compartilhamento de áudio : Não estariam acaso integrando um projeto pan-corporativo que oferece custo zero em determinados comodities, apostando no nicho potencial de seus periféricos e ou produtos agregados? No caso da música, disponibiliza-se para download o álbum do artista pois o preço dele estará embutido no valor do ingresso do show. Só para ilustrar, a Playstation propõe-se ao prejuízo no valor do console PS3, na expectativa de venda dos DVDS de game e seus Plug Ins. Cada vez mais o mercado do entretenimento tem operado dentro desta lógica, o que me faz repensar essa ebulição otimista dos entusiastas da sociedade 2.0 enquanto processo democrático.
Semelhantemente deveriam as cartilhas-auto-ajuda do marketing de campanha , instruir sua clientela de candidatos à distribuírem aplicativos piratas pro PC do eleitor contendo seu número e legenda. Uma vez eleitos, criariam-se emendas ampliando o efetivo do aparelhos de fiscalização a fim de recuperar a muamba nas autuações de rotina. Depois é só superfaturar o orçamento dos serviço de rolo compressor que estiver dentro do esquemão. Optimizando assim, o resgate de investimento inicial. De graça, até Mpeg na testa.

10.8.08

O Protótipo Fantasmal do Belo


1993. Na primeira segunda feira de cada mês a “crise dos paradigmas modernos” recebia seu banho ácido em emulsões Baudrillardianas ¹ sob a forma dos artigos-ensaios que assinalaram a colaboração do implacável crítico/escritor/sociólogo ao arrojado Liberátion² parisiense. Assistía-mos pois, talvez ao último espernear do velho mundo apontando suas baterias intelectuais em direção à decadência do homem que - saia de cena– está melhor comentada na théorie ironique do mestre francês do que no devaneio pró-imperialista de um Francis Fukuyama³ decretando o fim da história. “O homem acaba antes” – revelaria em tom de desabafo a moiçola à entrevistadora durante uma dessas enquetes de rua sobre a crescente insatisfação da mulher moderna em sua intimidade conjugal. Espiritualidade suína à parte, o ponto de relevância na piada é que não considera-se equívoco compartilhar do olhar melancólico de “nossa amiga” se atentássemos ao que diz Boudrillard em seu Tela Total ... mito-ironias do virtual e da imagem*. Estamos desaparecendo.

Embora aspiremos à um patamar de diversificação da matriz energética ainda é pela possibilidade sintética que se deixa seduzir nosso “ Florão da América”. Evidências? Seguramente, tratam-se menos do fato de pleitear-mos uma cadeira na Opep** senão as que indicam um consumo massivo de implantes de silicone que abarrotam os leitos cirúrgicos à perder de vista.. O onanismo-cyber rende diariamente tubos de euro-cifras à silimanequins do quilate de Ângela Bismark que prótese aqui, prótese ali, revive a saga do ser artificial re-criado a partir de recortes humanos na novela de Mary Shelley. Nossa Angelstein

evidencia uma inexorável sintomática da pós-modernidade

A SUPREMACIA DO CORPO COMO OBJETO DE CULTO encontra em nossos dias motivações estranhas àquelas da antiguidade clássica aonde sequer os selectos círculos gays atenienses contestariam a realeza das dimensões totêmicas no “corpinho” da portentosa Afrodite. Das febris investidas de Rodin contra o rochedo afim de extrair dali a exuberância formal que sacralizou seu explêndido estudo da anatomia às alegoria protética do cirurgião plástico moderno revela a sujeição da façanha artística à sua reprodução em escala industrial tal o preconizou o formidável Walter Benjamim em “ A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica.”

No imenso tabuleiro do tempo, as peças que encontram-se passíveis de substituição são aquelas advindas da iconologia imagética que originaram o gosto na antiguidade. A apuradíssima silimanequim descende mais diretamente dos mitos cotidianos da cultura de consumo da categoria de Barbies e Suzies, do que da Vênus crepuscular egressa de sua concha, modelo institucional do belo que causou rubor mesmo nas mais experientes cortesãs durante o renascimento. Ao mancebo que não apetece o afetar narcisista da metrossexualidade resta aferir a proveniência e as condições de estoque de sua musa. Os novos desconfortos da paixão podem representar algo no tipo de um “ Made In Paraguay

impresso nas costas da prometida. Afinal de contas, sob o julgar do leigo ,Barbie pde ser “tudo igual”. Nas bocas: Chiclete de pimenta só não é péssimo porque é pessimista.

Imagem: Título " 20%"- fotocomposição. Gorpo, 2006.